Vamos cantar uma piada?

O povo brasileiro é reconhecido por “droit de naissance” como divertido e espirituoso, capaz de temperar com uma pitada de humor as situações mais adversas. A anedota é uma instituição nacional. Ela é anárquica e indiscriminatória, apontando sua metralhadora giratória contra ricos, pobres, religiosos, minorias, etnias.
Enquanto em outros países cantores e músicos veteranos são prestigiados e respeitados, aqui perdem seu espaço e caem no ostracismo das churrascarias da vida. Os humoristas, porém, perduram no sucesso, ocupando horários nobres da TV. As piadas novas surgem abordando um acontecimento recente, andam o país todo e ninguém sabe quem as contou primeiro. Existem as clássicas, que nunca envelhecem, sendo passadas de geração em geração. Dois são os personagens principais: o português parvo e o papagaio velhaco. Com menos ibope vem em seguida o Juquinha, aluno safado, o japonês, ora tolo ora sagaz, os bichos, as bichas, o Bocage, hoje sem o brilho de algumas décadas atrás e outros menos votados.

A MPB, insuperável em sua versatilidade, não podia perder este filão e pretendo mostrar aqui como o compositor popular com sua criatividade transportou as anedotas para o cancioneiro.

Em 1929 Almirante compôs um cateretê chamado “Anedotas” com uma historinha bem infantil:

Um peixe que eu pesquei lá numa pescaria
Botei no galinheiro, ele acostumou
Ficou habituado que milho comia
Até junto com o galo que não estranhou.
E até pelo costume tinha liberdade,
E muita vez na mão foi que se alimentou.
Um dia (que eu maldigo) eu tive piedade
De ter tirado o peixe de onde se criou.
Levei-o para praia e fui jogar no mar,
Mas ele, ao que parece, disso não gostou,
Porque estando esquecido de saber nadar,
Coitadinho do peixe, n’água se afogou…

Fraquinha, hem. E vamos ao lusitano. Gariba na sua composição “Piada Boa” já dizia:

Já foi dito mais de uma vez
Piada pra ser boa
Tem que ser de português.

Concorda com ele o genial Wilson batista que em parceria com Roberto Martins lançou em 1946 a marcha “Não sou Manoel”, muito bem feita, narrando o telefonema recebido pelo luso, de Niterói, informando que sua mulher o traía:

O telefone tocou pro Manoel
E o Manoel saiu armado
E foi pra Niterói
Mas na viagem ele refletiu
Na consciência nada me dói
Não sou Manoel, não sou casado
Eu sou é Joaquim
O que é que eu vou fazer em Niterói.

O fecho é sensacional:

Mas Joaquim
Que é a favor da economia
Aproveitou esse boato
Fez a barba e deu uma voltinha,
Pois lá em Niterói
É tudo mais barato.

Lembram a do fanhoso na farmácia que queria comprar um nhem-nhem-nhem? Ninguém entendia nada e chamaram no armazém da esquina outro de nariz entupido para traduzir. Este ouviu e indagado respondeu: “Qué comprar um nhem-nhem-nhem ora! “Ficou todo mundo na mesma. Na obra de Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, “Piada de Salão”, o fanho virou gago mas o resultado foi delicioso:

É ou não é
Piada de salão
Se acham que não é
Então não conto não
Um sujeito que era gago
Procurou um botequim
Chegou perto do gerente
Outro gago bem ruim
E disse assim
Eu estou tô, tô, tô, tô
Aonde é que está tá tá
Mas o outro gaguejou
Chi! Tra, ra, ra, ra, ra.

“Índio quer apito” de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira é um marco no assunto. Estourou no Carnaval de 1961:

Ê, ê, ê, ê, ê
Índio quer apito
Se não der
Pau vai comer
Lá no Bananal
Mulher de branco
Levou para índio colar esquisito
Índio viu presente mais bonito
Eu não quer colar
Índio quer apito.

Com maestria os autores transpuseram a anedota da mulher do sertanista que, assustada com índio que a observava emitiu um som suspeito. Tenho um amigo, pseudo-moralista, que repudiou a música, taxando-a de, lembro-me bem o termo – pornofônica. Talvez achasse que o índio deveria assumir a postura de Metternich que numa recepção na corte austríaca, ao perceber que uma velha dama tinha soltado um traque, cavalheirescamente assumiu o evento dizendo: Estou me sentindo mal, peço licença para me retirar.” Argumentei-lhe ainda que Santo Agostinho escreveu sobre o explosivo assunto, relatando seu conhecimento com um indivíduo capaz de regular a emissão de gases e que o Imperador Cláudio pensou em baixar um edital exigindo que seus comensais, roncassem por baixo e por cima após se banquetearem. Nossos compositores foram mais originais. Por falar em moralista, o papagaio do “Mambo Papagaio” de Arcenio de Carvalho e Edson Menezes não faz jus à fama:

Meu papagaio não concordou
Com uma anedota
Que alguém lhe contou
Tais anedotas
Não lhe convêm
O meu papagaio
É gente bem.

O consolo é que o competente Miguel Gustavo resgatou-lhe o prestígio em “Anedota de Papagaio” feita para o Carnaval de 1966. Insinua aquela famosa do “dá ou desce”:

Curu paco, papaco, cocorocó
Vou contar mais uma
Umazinha só
Essa anedota é mais velha que a vovó
Um papagaio
Num balaio de galinha
Já ia perdendo a linha
Quando a censura chegou
O Costinha foi em cana
E o papagaio não cantou.

Em 1967 continua em evidência em “Piada do Papagaio” de Vicente Amar e Carvalhinho:

Chi!… Quase que eu caio
Quando você me contou
Aquela do papagaio
A piada é um estouro… pum!
Quá, quá, quá
Eu queira contar
Mas a censura não vai deixar passar.

Mais de dez anos depois, o índio se acultura e sem prever o perigo diz na composição de Roberto Valentim e Machadinho:

Ê, ê, ê, ê, ê
Índio não quer mais apito
Índio agora quer casar.

Encerramos com duas perenes, a primeira contada por Orlandivo e Paulo Silvino “Formiguinha”:

Formiguinha, tive um sonho gozado
Formiguinha, eu estou apaixonado
Me dá, meu amor, me dá
O abraço quente que sonhei
O beijo ardente que eu não dei
Formiguinha, larga a dor no formigueiro
Vem ser minha
Num chorinho brasileiro
Me dá meu amor, me dá, me dá você
Você pra mim todinha.

Formiguinha:

Elefantinho
Quero ser a sua namorada
Num chorinho
Vou romper a madrugada
Me dá, meu amor, me dá
Esse beição tão bom
Que vem matar-me de amor por você.

Elefante:

Formiguinha
Vem pra dentro dos meus braços

Formiguinha:

Advinha se eu seguirei teus passos…
Me dá, meu amor, me dá
Me dá você pra mim todinho.

E a Segunda chave de ouro por Cabral Imperial e Nonato Buzar, dois porta-vozes (palavra em moda) da pilantragem:

Só tinha canoa furada
No rio que transbordou
E não podendo passar
A formiguinha chorou
Nisso chega o elefante
E pergunta o que há
Se o problema é travessia
Sobe aqui eu vou pra lá
Formiga carona aceitou
E no meio da travessia
Trocaram juras de amor
Ao chegar do outro lado
Aconteceu o grande momento
O elefante pediu a formiguinha
Em casamento.

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