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As musas são peças de museu? PDF Imprimir E-mail
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História da Música Popular Brasileira
Escrito por Renato Vivacqua   

Este artigo pretende contar a história de algumas inspiradoras, às quais a nossa Música Popular deve páginas memoráveis. A idéia surgiu ao tomar conhecimento de uma declaração do compositor Carlos Lyra que considerei radical: Esse negócio de ter musa é um machismo sem vergonha. Vejamos quem tem razão.

Lupiscínio Rodrigues era considerado o homem da dor-de-cotovelo, para a qual criou uma terminologia. A dor federal que massacra o sujeito e a estadual que só dá um choquezinho. Todas as suas composições transpiram mulher. Vingança foi consequência de uma federal, cuja responsável foi a traidora Mercedes:

Eu gostei tanto
tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Chorando e bebendo
Na mesa de um bar
E quando os amigos do peito por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz
Não lhe deixou falar.

A tal Mercedes devia ser mesmo uma parada, pois inspirou o também queixoso Brasa:

Você parece uma brasa
Toda vez que eu chego em casa
Dá-se logo uma explosão.

Iná, a noiva que o perdeu para a boemia foi a musa do belíssimo Nervos de Aço, ao ser vista ao lado do marido:

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Nos braços de um outro qualquer.

Quem conhece a obra satírica de Assis Valente, cheia de gíria, buliçosa, sabe que debaixo desse verniz se escondia um homem obstinado pela morte que procurou por três vezes, até conseguir destruir-se. Um dos seus amores foi Boneca. Linda mulata 17 anos, artista de cabaré, para quem criou Boneca de Pano:

Boneca de pano
Gingando no cabaré
Poderia ser bonequinha de louça
Tão moça
Mas não é.(1)

À nova geração o nome de Jorge Faraj não diz nada. Foi ele, porém, um dos mais dotados letristas do nosso cancioneiro. Uma só mulher teve significado em sua vida e foi um amor inatingível. Era um boêmio irrecuperável e atravessou-lhe o caminho justamente uma jovem pacata, professorinha de subúrbio. Percebeu que não haveria conciliação entre tão diversos mundos. Renunciou explodindo em versos inspiradíssimos. Professora é o retrato do seu desalento:

Eu a vejo todo dia
quando o sol mal principia
a Cidade a iluminar
Eu venho da boemia
E ela vai, quanta ironia
Pra escola trabalhar.
Louco de amor no seu rastro
Vagalume atrás de um astro
Atrás dela eu tomo o trem (...)
Essa operária divina
Que lá no subúrbio ensina
As criancinhas a ler
Naturalmente condena
Na sua vida serena
O meu modo de viver
Condena porque não sabe
Que toda culpa lhe cabe
De eu viver ao Deus-dará
Menino querendo ser
Para com ela aprender
Novamente o bê-abá.(2)

Catullo da Paixão Cearense encontrou numa festa sua musa. A jovem, gente bem, filha de Senador, tinha o gracioso apelido de Coleira, por usar uma gargantilha de veludo negro. Catullo enfeitiçado, cortejou-a naquela mesma noite com a modinha Rasga o coração:

Rasga o coração
vem te debruçar
Sobre a vastidão do meu penar
Rasga-o o que hás de ver lá dentro
A dor a soluçar.

O impossível parece acontecer. Catullo começa a pensar em casamento, mas o pai, concedendo-lhe a fama de farrista, indefere-lhe as pretensões. Parte inconformado deixando para Coleira uma das suas mais belas canções:

Ontem ao luar
Nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste
Como era a dor de uma paixão
Nada respondi
Calmo assim fiquei.

Depois de sua morte, entre papéis amarelecidos, foram encontrados versos dedicados à mocinha, que nunca chegou a escutá-los:

Talvez não saibas que foste
Desde aquela ocasião
A musa que abriu nesta alma
A estrela da inspiração.(3)
Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça.

Noel Rosa foi um homem de muitos amores e muitas canções de amor. Nunca, entretanto, fez concessão ao pieguismo. Clara foi seu amor de rapzote e anos depois ao reencontrá-la numa festa a moça fingiu não conhecê-lo. Ali mesmo nasceu o samba Prazer em Conhecê-lo:

Ainda me lembro que ficamos de repente
frente a frente
Naquele instante mais frios do que gelo
Mas, sorrindo, apertaste minha mão
Dizendo então: tenho muito prazer em conhecê-lo.

Em 1931, volta de uma excursão ao sul trazendo um samba cheio de saudade e uma gaúcha no coração:

Até amanhã, se Deus quiser
Se não chover
Eu volto pra te ver, ó mulher.

A operária Josefina fez nascer uma das suas mais belas composições:

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você.

1934 é o ano em que surge Ceci, sua fonte maior, que lhe inspira várias obras. Dama do Cabaré descreve o primeiro encontro:

Foi num cabaré da Lapa
Que eu conheci você
Fumando cigarro
Entornando champanhe
No seu soirré.

O início do romance é contado no antológico Último Desejo:

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve seu começo
Numa festa de São João.

Em Pra que Mentir desabafa seus ciúmes:

Pra que mentir
Se tu ainda não tens
Esse Dom de saber iludir
Pra que mentir
Se não há necessidade de me trair.

Um grande sucesso de Carnaval, A Mulata é a Tal, de Antonio Almeida, teve também sua musa de carne e osso. Foi feita para a Rainha das Mulatas, Maria Aparecida, hoje prima-donna da ópera de Paris:

Branca é branca
Preta é preta
Mas a mulata é a tal, é a tal.

Sinhô, o mulato almofadinha, autor de Jura, Gosto que me enrosco, não se deu bem com a namorada branca como atesta este samba:

Ó minha branca
Você pensa de me acabar
Eu vou te deixar de tanga
Não posso me amofinar.

Com Noel Rosa, Custódio Mesquita teve como mulher-estro uma Ceci, que lhe inspirou Mulher:

Não sei que intensa magia
Teu corpo irradia
Que me deixa louco assim Mulher.

Prelúdio pra ninar gente grande foi feita a bordo de um avião por Luiz Vieira ainda impregnado por uma baiana muito meiga, carinhosa, com quem teve emoções travessas e delicadas.

Quando estou nos braços teus
Sinto o mundo bocejar
Quando estás nos braços meus
Sinto a vida descansar.

As musas não são fruto de uma época como muitos podem pensar, já que compositores mais recentes também foram envolvidos. Tom e Vinícius fizeram nascer na mesa de um bar de Copacabana a Garota de Ipanema empolgados com a menina Heloísa que desfilava encantadora por ali.

O irreverente Juca Chaves, apologista da mulher e do cabotinismo, o que lhe tem rendido uma boa nota, investiu nas suas carraspanas sentimentais, produzindo belas modinhas. A sua Ana Maria não é imaginária, existiu e causou-lhe dissabores. Menina foi a primeira música para ela:

Menina, ouça o que eu digo
O meu castigo
Tive-o só por te adorar.

Musa infiel foi outra, que ele rotula de pleonasmo:

Musa infiel
De olhar cruel
Envolto ao véu
Da ingratidão.

O clímax foi belíssimo Por quem sonha Ana Maria:

Na alameda da poesia
Chora rimas ao luar
Madrugada e Ana Maria
Sonha sonhos cor do mar
Por quem sonha Ana Maria
Nesta noite de luar?.

Jorge Ben já louvou sua Tereza em várias composições, culminado com a explosão de suas maiores paixões, quando diz:

Eu sou Flamengo
E tenho uma nega chamada Tereza.

Tragi-comédias surgem tendo como protagonistas as musas. A que vamos narrar aconteceu com Lamartine Babo. Em 1935 ele começou a receber na Rádio Nacional cartas apaixonadas, vindas de Dores da Boa Esperança, em Minas. A fã se chamava Nair e durante um ano correspondência cada vez mais ardente foi se estabelecendo entre eles. Fascinado compôs para ela uma das nossas mais belas canções: Serra da Boa Esperança:

Serra da Boa Esperança
Esperança que encerra
No coração do Brasil
Um punhado de terra
No coração de quem vai
No coração de quem vem
Serra da Boa Esperança
Meu último bem.

Surgiu então a grande oportunidade de conhecê-la quando recebeu convite para ir à cidade prestigiar a estréia de um conjunto musical. Era a chance de ouro para procurar a amada que na derradeira carta terminara tudo. Estava inconformado e indo lá conseguiria uma satisfação. Chegou aclamado e foi recebido pelo dentista Carlos Neto(4), fundador do grupo orquestral e que lhe fizera o convite. E nada da Nair aparecer. Pergunta daqui, pergunta dali, todo mundo desconversando. O dentista, já constrangido acabou por revelar o trote genial. Nair existia sim, mas era sua sobrinha de sete anos e quem escrevia as cartas era ele. Lamartine não se pertubnou, levou na gozação, ficou por lá mais vinte dias na mordomia e mais tarde o dentista com remorso ainda lhe deu a parceria de Vaca Amarela. Grande amor foi também a chapeleira Alda, que fez nascer em 1932 a Marchinha do Amor:

Com a letra A
Começa o amor que a gente tem
Com a letra A
Começa o nome do meu bem.

Apesar de muito feio Lamartine era um cortejador incurável e infiel. Acabou por magoar Alda que casou com outro. Sentiu muito, colocando sua dor em:

Mais uma valsa, mais uma saudade
De alguém que não me quis
Vivo cantando, a sós, pela cidade, Fingindo ser feliz.

O engenho poético de Caetano Veloso criou Trem das Cores para a bela Sonia Braga:

Teu cabelo preto
Explícito objeto
Castanhos lábios
Ou para ser mais exato
Lábios cor de açaí.

Em Rapte-me Camaleoa o astro tem o destino da atriz Regina Casé, que é estimulada num brilhante jogo de palavras:

Rapte-me camaleoa
Adapte-me a uma cama boa
Capte-me uma mensagem à-toa.

Gilberto Gil continua impregnado pela ex-mulher Sandra. Canta isso sofrido em Deixar Você:

O fim do amor, oh não
Alguma dor talvez sim
Que a luz nasce da escuridão.

Lido o atigo dá para se perceber que as musas continuam aí, deusas envolventes, e que devem ser salvas da imolação apregoada pelo compositores computadorizados.

NOTAS

1- Gasparino Damata, na crônica A Lapa está virando saudade, in Antologia da Lapa, mostra-nos Boneca vista por Laura, que foi também uma das mulheres mais formosas do antigo reduto boêmio: “Boneca era linda. Sou mulher e mulher não gosta de achar outra bonita, mas a Boneca foi a pequena mais bacana que apareceu na Lapa. Como Boneca nenhuma” Damata complementa o perfil da jovem: “Boneca tinha 17 anos quando começou a aparecer nos cabarés. Os homens endoideciam por ela, disputando sua companhia. Boneca brilhava. Mulata clara, filha de português, tinha cabelos louros, corpo bem feito, os olhos castanhos claros, a pele boa. Boneca levou alguns ao suicídio e inspirou várias músicas aos compositores. Um deles, Assis Valente, compôs uma valsa com muita coisa dela, da sua beleza diabólica. Foi perpetuada na voz de Francisco Alves. Muita gente chegou a pensar que aquela boneca era só de vitrine”.

2- Pungente é outra música que fez para a professorinha: Telefone do Amor:

Para ver se te esquecia
Ó quimera fugidia
Ó santa do meu altar
Retirei o telefone
Do apartamento onde insone
O teu nome vivo a rezar.


3- Um fato nebuloso na vida de Catullo, segundo um dos seus biógrafos, Carlos Maul, foi a verdadeira razão da desistência. Em 1885 era Catullo professor dos filhos do Conselheiro Silveira Martins e morava num quarto dos fundos. Certa noite chegou meio de cara cheia e, ao entrar em seu aposento, foi surpreendido ao encontrar uma mulher semi-despida, que começou a gritar histericamente, dizendo-se violada. Logo surgiram desconhecidos que arrastaram o estarrecido Catullo para a Delegacia, onde foi autuado. Ingenuamente, o poeta imaginou-se realmente casado e, pela versão de Maul, foi esse o motivo real que levou a sacrificar o amor de Coleira. Só muitos anos mais tarde é que descobriu ter sido vítima de uma farsa que nunca conseguiu esclarecer.

4- João Antero de Carvalho, in Torcedores de Ontem e de Hoje diz que Carlos Neto era professor de Latim! David Nasser na biografia que esvreveu de Carmem Miranda relata que o protagonista foi Chico Alves e que este pediu a Lamartine que compusesse algo para cortejar a fã desconhecida. Continua David, narrando na voz de Francisco Alves, que foi marcado um encontro depois de muita insistência deste, num local ermo. Quando se aproximou uma gargalhada masculina denunciou o lôgro. É uma versão fantasiosa como se vê. Carlos Neto acabou vindo para o Rio, foi colega de trabalho de Nestor de Holanda e esclareceu-lhe a verdade dos fatos.
 

Rodapé

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